quarta-feira, 19 de junho de 2013

Os viciados em amor

Como todas as dependências, também aqueles que são viciados no amor acabam por sofrer. Muitas vezes sofrem porque não conseguem amar ainda mais.
Uma nova crónica para os que mais amam...partilhem com todos eles.

(texto integral mais abaixo)

Bons desafios,
David




Os viciados em amor

Devo amar? Devo deixar que me amem? Devo cultivar o meu amor próprio?
São opções que se nos deparam todos os dias da nossa vida. Gosto de frisar a palavra opção, apesar de saber que a maioria de nós não o encara desta forma. Mas amar é um verbo. E os verbos exigem ação, movimento, atitude. 
Há pessoas que tendem a estar para os outros. Vivem dessa fantástica ligação de amor que conseguimos estabelecer entre nós. São seres que vivem para amar e para serem amados. São catalisadores da mais pura forma de estar...amando...sendo amados...amando novamente. Nutrem quem está à sua volta, dando pela genuína sensação de saberem que contribuem para a felicidade dos outros. Colocam os outros em primeiro lugar, abstendo-se e abdicando daquilo que são as suas próprias vontades. Fazem-no de forma natural. Têm dificuldade em negar algo aos outros. Não conseguem dizer não a quem tanto amam. 
Quem vive exclusivamente para amar os outros, depara-se mais tarde ou mais cedo com uma barreira invisível e aparentemente intransponível. Por mais que queiram, o seu amor apenas é suficiente até um determinado ponto.
Tenho tido a oportunidade de estar com muitas pessoas que se enquadram nesta descrição. Pessoas boas. Pessoas que sofrem porque não podem amar mais ainda. Pessoas que sentem que o seu amor pelos outros não está a trazer os resultados que gostavam de ter/ver nos outros. Pessoas que ao amarem tanto estão a prejudicar a quem tanto querem bem.
É um sofrimento tão real que parece tangível. Vejo gente de uma generosidade tão imensa que parece impossível que recebam tão pouco. É como ver alguém a afogar-se aos poucos e ainda assim a distribuir o escasso ar que tem pelos outros. É aflitivo e sufocante. E dói. A quem fala e a quem ouve. Dói porque não é justo. Dói por saber que tantas outras pessoas passam pelo mesmo.
São assim os viciados em amar os outros. Como qualquer dependência, torna-se tóxica. Não é sustentável. É uma morte anunciada. Uma morte muito pior que a física...a morte emocional. A morte da capacidade de amar. A morte do sentir.
A resolução deste vício só é possível, através da integração de um paradoxo. Uma lei que de tão desconcertante leva à estranheza, à fuga, à negação. Algo tão impensável que os viciados em amar os outros, rejeitam inicialmente a sua lógica. E eu compreendo, porque vai contra a sua própria natureza.
O princípio baseia-se na lógica que defende que só é possível dar o que possuímos. E isto diz respeito a tudo o que é material (como o dinheiro, os objetos, os bens), mas também a tudo o resto (como o tempo, a sabedoria...o amor!). Ou seja, é capaz de amar os outros aquele que tiver em si mesmo amor suficiente para o fazer.
A solução é o amor-próprio. É conseguir dar pequenos passos em relação ao desenvolvimento de um amor mais interior, mais individual. É olhar um pouco mais para si, aprendendo a colocar alguns limites à sua própria disponibilidade em relação aos outros. É compreender que sem amor-próprio não é possível amar os outros. Que sem recarregar a sua capacidade de amar não conseguirá distribuir amor a quem ama.
Para quem é viciado em amar os outros este cenário é um desafio de enormes proporções. Tenho plena noção disso. Há a censura, o julgamento, a confusão com ser egoísta. Existe o medo de começar a ignorar as necessidades dos outros.
Por isso, quando este processo é iniciado é preciso ter bem presente, que apenas o devem fazer por uma razão superior. A crença e esperança de que a conquista de amor-próprio vai dotá-los de muito mais capacidade e disponibilidade de amar os outros. Fazem-no pelos outros. Porque é o que sabem fazer... AMAR!

davidnascimentocoaching@gmail.com

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